quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

1987-2006



 Sorrias, parecia, de repente
E as flores não escondiam no seu ventre
A promessa de paz, imaculada.

Era princesa que dormia, circundada
Pelas rosas mais malditas, inventadas
E por lírios zombeteiros coroada.
...
Era Aline, no seu último abrigo
E a dor do novo não-nascido
e do seguir, do prosseguido
e abreviada.

Ironia

Riu, do alto calvário, o Galileu!
Da vil, e terrível ironia!
De quem a vida própria deu
E em troca, recebeu agonia
- Rir é tudo que me resta!
Disse com os olhos no ar
-Riam todos, riam dessas festa
-Não há porque chorar...
O galileu, gargalhou em loucura
Pela dor, ou por lembrar do passado
Ao sentir o sangue, a vista escura
Gargalhou! E estava tudo consumado

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Nhá Camila dizia para Júlio Cesar:
Levanta, menino, vá arrumar um serviço
Júlio Cesar, respondia depressa:
"Tô ino, mãe, tô ino!"
Garoto danado, fugia da lida
Comadre Camila, berrava ligeiro
Acorda, menino, arruma um emprego!
Levanta safado, acorda pra vida!

Júlio Cesar um dia acordou
No pé, o chinelo, maleta sem fundo
Menino danado, se embriagou
Com cheiro de novo do oco do mundo.

João do Mar

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Schrödinger II

Descanso, a tarde, numa sombra
Que se alonga conforme o tempo passa
Ouço revoar alguma garça
Escondida nalgum canto da obra

Estando ali, estaria onde?
Senão ali, deitado e calado?
Quem abriu este balaio de gato
Quem descarrilhou o bonde?

Que olho curioso fez real esse universo?
Qual era a alternativa, qual seria o resultado?
E se o tempo ido fosse agora revogado?
E se tudo fosse novo, anulado ou inverso?

Descanso? A tarde já vai se despedindo
Um gato preto pula pelo muro do regato
"Talvez a vida seja o chorar o que foi perdido"
E a nossa curiosidade quase sempre mata o gato.

Schrödinger

Pelo sim e pelo não
Quebrei alguns cartões
Alguns, não, todos eles
Remendei calças e gravatas
Revindiquei reinos e coroas

Pelo sim e pelo não
Garanti horas-extras
Fiz alguns inimigos
Bebi mais que devia
Falei mais que queria

Pelo sim e pelo não
Fiz e não fiz
amei e não amei
Odiei
Roguei pragas
Abençoei

Pelo sim e pelo não
Transcendi
Eclodi
E agora
Poderia estar morto ou vivo
E a questão nem seria essa
Morto ou vivo, morto e vivo
talvez vivo.

sábado, 10 de agosto de 2013

Se faço versos endiabrados
cabe a mim só o julgamento
Se faço acordes desmantelados
Porque te dói? Porque o tormento?

Meu verso é como fosse o mar
Revoltoso, escuro, profundo
ou calmo, alegre, de se nadar
mas sempre há toda água do mundo!

Reclamas, reclamas, reclamas também
Revolta-se sempre.Que é isso, menina!
Ou meus versos a senhora abomina,
Ou no fundo me quer bem.



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Amanhã.

Amanhã
faço a barba
corto laços
quebro barras
lanço moda
minha alma de fora
vou viajar
Paro de fumar
vou ver a lua
ando na rua
vou ver o mar
Amanhã,só
Ah! O Amanhã...
Planejado, discutido
e sentenciado
Prova inconcreta
Quintessência
da existência
do "deixa pra lá"