sábado, 15 de fevereiro de 2014

Ressaca.

Quero beber a mais herética das liberdades
O mais doce e denso dos amores
A última gota dos dilemas
Quero beber a vida, em goles rápidos
Estasiantes, sufocantes! Sem respirar!
Quero beber o vento, o mar, o sol...

Mas eles estão lá fora, revoltados com
A minha sede. Eles estão no meu portão
Bloqueando a brisa tépida, o mar bravio
E o sol sem coroa.
Queria bebê-los também, absorve-los
Mas não os engulo a seco. Por isso
Bebo a mim mesmo, me consumo,
Quando estou bêbado de mim
Vomito o que eu sou e fui
Aqui.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sophia (Musica de ninar)

Se já te faltar a euforia
Se o mundo negar a alegria
Se mesmo no dia mais quente
Você não se sentir contente
Sorria, Sophia...

Não para disfarçar a agonia
Nem uma falsa melancolia
Sorrir é o melhor remédio
Contra a dengue e contra o tédio
Sorria, Sophia...

Se tudo que há te aborrece
Sua vida sem graça te entristece
Engula então a monotonia
Sorrindo para fotografia
Sophia, Sophia!


2007


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Reza dos homens-vermelhos

A benção a Monã, pai criador
Por Nhanderuvuçú criado
Neste mundo seco e beligerante
Onde perdidos, os teus filhos
E os filhos de seus filhos
Pelejam e fogem das garras de Anhanguera
Livrai-nos dos homens-brancos
E de todos os maus-intencionados
Protegei a estirpe de Sumé
Pai de Tamandaré, Ariconte
E de toda a nação Tupi
Mantem-me reto no meu
Peabiru.
Pois há todo tipo de mal
Na beira do caminho.
Mas, pela graça de Guaraci
Jaci, e todos os grandes espíritos
Vencerei a escaramuça
E meu destino será grande, vitorioso
Até meu corpo retornar ao chão
E meu espírito, assim como o dos meus ancestrais
Descansarem, emfim, na casa da luz celestial
Onde todo homem é igual, e toda dor é curada.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Aos vazios que hão.

...Então. Antes eram grandes e complexos planos de fuga, hoje, grandes e urgentes planos de luta. Não me refiro aos antigos pactos nem aos novos. Não me refiro às antigas juras sob a lua, nem as novas, no meio-fio. Refiro-me a mim, cansado sempre, triste sempre, sozinho sempre, conflituoso sempre. Há em mim uma sombra no peito, sem ter origem em coisa humana ou inumana -transeunte- entre estes dois estados. Aqui há, entre esses grandes espaços, um outro espaço muito mais vasto. Um hiato entre a sala e o quarto. Um abismo de sossego desesperador. E entre esses dois momentos, eu existo. Existo, existo, existo. Nasceram comigo estas grandes vastas lonjuras? Essas enormes enormidades? Vastidão vazia, no espelho enxergo nos meus olhos. Há, que, talvez. Pois bem, não me queixo de todo aos outros amigos e parentes meus mais próximos. E quase tudo, tudo, que escrevo é de caso pensado e baseado em mim e em meus nobres mortos. Se há virgula sem posição certa, se há acento ou letra maiúscula sem carecer ou carecendo, é por meu querer só. Poesia. As vezes eu rio, nunca choro. Abate-se-me um banzo só. Coisa miúda e de pouca duração. Mas nunca feliz inteiro, nem infeliz total: meramente meio-a-meio. É ruim, sempre esse não ser-sendo, esse Eu cheio de vazios. É ruim? Me aturo. Com dificultosa ternura, me aturo. Talvez seja a minha pena - E todo mundo nesse mundo não tem uma?- Pena. Sinto, as vezes, que espero algo. Um susto grande e alegre que me revelaria muitas coisas boas! Talvez, eu espero sempre alguma coisa mais funda e profunda, uma coisa mais larga e alta. Sinto que espero uma grande coisa oculta, uma transcendência magnífica, uma catarse tântrica. Espera, zé! Espera o que não chega. Meus vazios, talvez, tem a consistência e o fundamento no meu esperar. Esperando não me preencho. Porém, vazio , só me basta esperar. O quê? Vou fazendo coisa pequena, escrevendo e vivendo enquanto espero.Poesia. Então...

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Maio & Junho

Portugal , o berço
Vejo invernos, cruéis
E vejo um terço
Dos teus fiéis
A congelar em teus bordéis

Velho mundo, não te tema
Hei de te ver novamente
Com primavera amena
E te ver de repente
Outra vez, Vila Morena

Brasil, o gigante
Antes ver-te caminhar errado
Do que ver-te, vacilante
Em teu berço dourado
Ressonando, retumbante

Com meditação serena
Todo passo se acerta
Faz da tua labuta pequena
Tornar-se grande, outra meta:
Fundar em ti, Vila Morena.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Há de ser por pele?
Ou por toque?
Há, quem sabe, de ser
De só saber
Qual o tamanho de viver?

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Relógio.

Que horas? Me pergunto calado. Ouço os segundos, sinto o gosto das horas.
É essa estagnação mórbida que encontrou seu ninho em minhas entranhas e pensamentos. Como parasita hediondo, como manifestação espectral, como nuvem negra de tempestade.
E as horas, as que vejo e ouço, soam como uma rápida melodia, atropeladas, atravessadas, altas e inconstantes. Caminho ao longo da casa, sem paradeiro, e minha alma sem pouso caminha dentro de mim. O relógio na parede me assusta! Já são seis? Já são oito? Ponho a culpa no verão. As nuances das cortinas a esvoaçar, os sonhos bobos, os programas de televisão, todos são tão inúteis quanto o meu espanto ao observar o caminhar das horas. O que há além dessa aflição? Uma garoa cai, agora, enquanto me questiono, a terra fica perfumada. É um alívio esse perfume adocicado, é um bálsamo, uma catarse! Daí o relógio bate suas cruéis badaladas, me sobressalto e todo cenário se esvai como um castelo de cartas. Devo partir, mas para onde? Devo correr, mas com que pernas? Devo fugir...
Atrevo-me a comparar minha sina a outro qualquer, entristeço-me em perceber que meus versos sinceros, não terão nunca  a qualidade dos versos de meus amigos. E a sombra do relógio me persegue, e a zombaria das badaladas, e as horas, as horas, as horas! No meu pulso há outro relógio, quase imperceptível, gasto de tanto se encarar. Contando horas ao contrário, como uma contagem regressiva. Nele há uma pequena frase apagada, a não ser pela última palavra: "motivo". Um motivo? Algo que possa me motivar? Mas os ponteiros andam lentos (ao contrário do relógio da parede)  e minha agonia se dobra! Em loucura, quebro os móveis, as louças, as hora e segundos. E percebo que a palavra "motivo" era tudo que me motivava! Eu, pobre homem fraco e sujeito às vicissitudes do tempo imoral que vivemos, sou motivado pela busca de um motivo! Patético e incoerente, sou eu, o meu próprio não ser. Ser incompleto, imperfeito, irreal. Motivado pelo buscar uma Motivação. Uma singularidade no tempo-espaço, um rasgo no tecido da realidade.

Era eu, sempre fui eu, o relógio na parede e o relógio no pulso.