Tenho, morando em meu quarto
Um preto velho de pernas compridas, chapéu de palha
Que uma noite me perguntou quem eu queria ser quando eu crescer.
Eu disse que queria ser Diego: Com sua simplicidade doce, sua malandragem inocente.
Que queria ser Janaina: Com as superficialidades mais profundas que existem
Queria ser Argolo: Com sua perfeição imperfeita, com suas paixões eternas e inconstantes.
Queria ser Merlin: Com a tristeza sublime, os gritos abafados e o ódio silencioso.
Queria ser Mateus: Articulado sempre, exato sempre, coerente sempre, intenso.
Queria ser Mineiro: Um Guru a quem recorremos sempre que a poesia nos escapa entre os dedos, para namorar as estrelas no céu. Ele é zelador do céu.
Queria ser Victor: Criar mundos apartir do pó. E me aventurar neles, sem medo.
O Preto velho me olhou, com aqueles olhos de supernova. Gargalhou forte, um trovão!
E acordei Gabriel.
terça-feira, 1 de abril de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
Não perdoar, nunca perdoar
Deus, que é dado a este
tipo de fraqueza infantil, que os perdoe.
Perdoe a história, que é puta adestrada das circunstâncias
Perdoe a geografia, a evolução, a situação.
O Agressor? O Opressor?
Quando nos jogaram em porões de caravelas
Quando nos impuseram uma dieta de salmos
Quando acorrentaram até os nossos fetos
Não houve afrouxamento. Hoje, o ocidente diz
Que desfilar as nádegas nuas em Ipanema
É liberdade.
E Há quem pinte esses murais
Há quem reproduza essas etiquetas
Liberdade, essa inexistente criatura
Que só os que morrem podem conjurar
Não nos chegará de navio, ou avião
Não chegará por meio de tratados e assinaturas
Só chegará quando não perdoarmos mais
Quando o olhar dócil e amarelado, se transfigurar em
Ânsia vermelha, em grito de basta.
Quando o último negro arredio, fugir de sua Senzala Mental
domingo, 16 de março de 2014
Manhã Gloriosa IV
...É a morte. A última transcendência. A última
Vertigem.
- E eu estou doente. Eu estou muito doente.
Queria viver como um cão. Contemplativo.
Uma vida totalmente sensorial, repleta de
Instintos, e emoções pungentes. E curta
Ah! Como é gloriosa e curta a vida dos cães!
A dos homens, por outro lado, se estende
Enfermiça, enfadonha, repleta de clichês.
Cheia de dias cinzas, de noites frias, e verões
Sufocantes. E no fim, bem no fim,
Deitamos na sombra do tempo ido
Fechamos os olhos e dormimos.
Mas só depois de termos estado bem doentes
- Nascemos miseravelmente doentes.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Manhã Gloriosa II
Implodir
Por dentro, desmoronar
Afogar-se em escombros
De si
Soterrar-se
Sepultar-se em cal
Em sal
No ar cáustico
Corroer-se,
Verme de si.
Por dentro, desmoronar
Afogar-se em escombros
De si
Soterrar-se
Sepultar-se em cal
Em sal
No ar cáustico
Corroer-se,
Verme de si.
sábado, 8 de março de 2014
Sobre negras prisões, ou existências.
O choque dos corpos- Newtoniana melodia- Uma sinfonia de sussurros inaudíveis para quem existe além do quarto. Existem? Pois sim? Regresso minha mente ao quarto. A cama. Aos corpos. Aos choques, agindo e reagindo, pequenos gestos me indicam os passos a seguir. Totalmente inexperiente do seu corpo, tateio como um cego sem cão, sem mãos. A língua, sedenta, mapeia cada recanto, cada guta, cada depressão de tuas coxas. Imerso em suor, mergulho em ti, obliterado, estasiado, vacilante. Deliro, suspiro, desejo, não paro, já exausto, não paro. Tal qual uma criatura marinha, emergindo das imensidades profundas dos abismos, teu gozo vem, devagar...Explode na superfície, rompendo o tímido e frágil véu que me protegia das tuas vastidões inexploradas - por mim- e me joga num limbo, numa dimensão além. Não me recomponho, nunca me serei meu novamente. O quarto, a cama os outros pararam no tempo, às três da manhã e ainda estão lá... Eu ainda estou lá. Ermitão - perdido por querer- assentado de assalto, arma em punho, sem retorno, na posse dos terrenos das tuas coxas negras, teu ventre fértil e teus seios pagãos.
Amar-te? Não existe - Existe o choque dos corpos,os sussurros, a sinfonia. Além disso, nada mais é do que ilusão prolongada, deleite da lembrança...Prisão que me pus por vaidade.
Amar-te? Não existe - Existe o choque dos corpos,os sussurros, a sinfonia. Além disso, nada mais é do que ilusão prolongada, deleite da lembrança...Prisão que me pus por vaidade.
domingo, 2 de março de 2014
Março.
Tudo no mundo é saudade
O coração exausto, dança
Nos olhos, essa obliquidade
Que a vontade não mais alcança
Tudo no mundo é cansaço
Tudo nos sangra, nos fere
Ninguém nos carrega no braço
Em nossa dor, ninguém interfere
- E esse carnaval agora?
Essa folia, não é teu alento?
Há festa,calor e luz lá fora.
Mas há um frio negrume aqui dentro.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Cessar-fogo
Todo carnaval é um cessar-fogo. Um desafogo, um fôlego. Algo que mergulha no falso sagrado, ou verdadeiro profano -moeda de quatro faces- paradoxo. A calhar bem, cai no verão, onde é deveras facilitado que o espírito idólatra que reside em todo brasileiro se exalte, externalize sua forma pagã. Não que eu me queixe! Exalto-o, apenas. O carnaval é a pausa na peleja do ano, é a calmaria de uma ressaca de trezentos e sessenta e cinco dias. É merecido. E desse merecimento nós vivemos. Ansiosos, administramos nossos vinténs e segundos, planejamos nossas andanças, viagens e retornos... Uma semana antes, quase devorando o próprio fígado de tão ansiosos! Tudo planejado? Pulamos no abismo da sexta-feira, arregaçamos as mangas e entramos na folia. Os planos se vão, tudo se esvai. Não somos nossos mais. Como grãos de sal sendo revolvidos pelas ondas, não sabemos onde vamos ou se retornamos, extasiados, dilacerados, desfeitos à golpes de alfaia e surdo. Repiques e tamborins. A loas quebram nossos espíritos, os sambas transpassam nossas almas. E sorrimos por isso! Agradecemos! E na quarta-feira, somos queimados em uma grande fogueira, dançamos, como bacantes entorpecidas, dançamos e cantamos e rodamos em meio ao fogaréu, entregues por conta própria às chamas! E tudo se esvanece em cinzas e confetes... Morremos? Não, renascemos, poderosas fênix de asas douradas, deuses renascidos depois do Armagedom. Limpamos as cinzas das roupas, limpamos os confetes dos sapatos, e retornamos para a guerra. Renascidos, porém.
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